
Este texto tem a preocupação de colocar sob o foco de luz uma notícia que, ultimamente, parece estar recebendo uma atenção menor do que a devida: o julgamento do ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, e todo o assunto de fundo que envolve esta etapa importante da relação ocidente e mundo islâmico.
Farei o possível esforço para não ser muito rígido nas primeiras linhas, pois muitos leitores torcerão o nariz para o meu pedido de pensarem criticamente este assunto aqui tratado. A razão disso é que há uma infinidade de gente que se diz bem informada e, ao ouvir a palavra Iraque, dispara adjetivos impublicáveis contra George Bush. É uma espécie de reação pavloviana bastante pitoresca, à medida que evidencia que os informados não são tão informados assim, ou apenas fazem sua patrulha ideológica a varrer. Uma perda de tempo.
Desde o começo da guerra no Afeganistão, há milhares de questões nebulosas a respeito do desfecho desse caos local misturado com ação geopolítica em resposta aos atentados terroristas. Ouço todos os dias, como um mantra, que os atos terroristas são apenas uma resposta à "opressão" que o ocidente exerce sobre o povo islâmico. Uma bobagem: terroristas são indivíduos radicais, que estão dispostos a matar qualquer um. Jornalistas, turistas, e até civis compatriotas. É uma vontade desenfreada de expurgar do seu mundo tudo o que não lhes convêm, todos que não são igualmente radicais às suas crenças. Os politicamente corretos gostam de passar a idéia de que, se Bush adotar a linha paz e amor, os terroristas também o farão.
Neste sentido, não custa lembrar os leitores que os atentados vêm sendo postos em prática em escala global há tempos (alguns sérios no final dos anos 80), e não nos últimos anos. Ficando apenas nos mais recentes, houve o assassinato de um jornalista renomado na Holanda, a explosão dos metrôs de Madri e de Londres, e o episódio do ´World Trade Center´ nos EUA. A meu ver, essa tendência de crimes absurdos dá aos governos ocidentais um limite para o diálogo pacifista com os extremistas. É uma espécie de prova de fogo: se o diálogo não os barra de agir violentamente, há de se ter uma resposta no campo geopolítico. Se nada for feito, ficará evidente, em nível estratégico, que os países ocidentais não passam de "tigres de papel".
Voltemos, então, ao caso Saddam Hussein. Apesar do adiamento do julgamento conseguido pelos advogados do ex-ditador - agora marcado para o final de novembro - teremos a oportunidade de presenciar a sentença de um homem acusado de diversos crimes contra a humanidade, e que há 24 anos deita e rola naquele país, promovendo injustiças e pobrezas em todos os níveis. Além de ter ordenado a tortura e o assassinato de uma série de pessoas, desde a invasão foram encontradas no Iraque dezenas de valas onde eram depositados cadáveres humanos (inclusive de crianças).
Apesar de todos os problemas e questões que surgem em razão de uma guerra, e de todas as incertezas que a população iraquiana ainda tem, a verdade é que uma parcela da população, os xiitas e os curdos, tem num suposto regime democrático a esperança de verem seus direitos enfim respeitados, ao passo que os sunitas, tendo perdido os privilégios que tinham com o regime totalitário de Saddam, temem se tornar uma minoria perseguida.
Recentemente, o país levou à votação um referendo a respeito de uma nova constituição no país (sim, em alguns lugares do planeta existem referendos úteis). No referendo anterior, os sunitas entraram em choque com os exércitos ocupantes, pois queriam impedir até mesmo as votações. Dessa vez, as eleições transcorreram de maneira tranquila, e com maior adesão. Xiitas e curdos, que somados correspondem a 80% da população iraquiana, votaram em favor dessa "reforma constitucional", e alguns sunitas votaram contra a medida, mas votaram.
O desafio atual do país é abrir o processo democrático sem que haja rachaduras entre esses grupos, o que fica especialmente difícil pelas localizações das reservas petrolíferas. Nada mais normal, pois saem de um regime de medo e imposição que durou quase três décadas. Com o julgamento de Saddam, devemos esperar que os iraquianos saiam fortalecidos em relação ao sentimento de participação política no governo de seu país, anteriormente uma mera utopia.
E se a população entender que pode haver uma unidade dentro país, e que ela pode ser atingida de maneira democrática, poderemos enfim acompanhar um momento de virada em todo esse dilema começado há dois anos atrás. Houve muitos erros, mas há muitos iraquianos que estão experimentando pela primeira vez o que é poder ter liberdade de escolha e saber que sua contribuição servirá, finalmente, aos assuntos do seu país.
Se o leitor tem raiva de George Bush, e o culpa até pelo Katrina, sem problemas. Mas deveria saber que se informar, por vezes, pode ajudá-lo a não cair no ridículo intelectual, e a não fazer de problemas bastante complexos, como relações internacionais tensas, meras conversas de botequim (com perdão a esses espaços sagrados).
A mídia brasileira frequentemente escolhe a intensidade com que mostrará certas notícias. E isso deriva de um perfil ideológico que não esconde o pó da velhice, já de décadas. No caso do Iraque, mostrar o que pode vir a ser bom não tem graça. A diversão está em esculhambar diariamente Bush e Blair, principalmente o primeiro.
Mesmo com os problemas e erros que uma ocupação traz, aliados a um plano político muito ruim, uma oportunidade de garantir as liberdades individuais dos cidadãos é importantíssima. Para quem detesta essa idéia, e acha que Saddam está sendo sacaneado, mude-se para um desses países com pequenos tiranos de plantão e fique por lá. Gosto não se discute, mas viva o que você acredita.
O radicalismo religioso que funciona à base da violência preciso ser contido, pois não está, há tempos, restrito aos países de sua origem. E a coragem para começar esse movimento é para poucos. Vejo um saldo positivo, apesar de ser uma questão com incontáveis desdobramentos. E torço para que a população iraquiana possa garantir, em definitivo, um país melhor e mais livre.