Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Nova Empreitada

A Semana do Presidente é um projeto que foi descontinuado, mas minha vontade de escrever e me expressar continua bem viva.

Sem grandes pretensões, mas com muita vontade, apresento meu novo blog:

Caldinas

http://caldinas.blogspot.com

Visitem, leiem, participem, comentem, indiquem espalhem!

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

O Complexo do Início - O antes segundo o Cordel do Fogo Encantado e O Meio por Luiz Tatit

(caros leitores, o texto abaixo pertence a um de nossos ilustres leitores, Daniel Motta, que insistiu que publicássemos em A Semana do Presidente, apesar do blog estar e continuar tecnicamente morto)


então, a definição de cordel para o Professor Raymond Cantel, da Universidade Federal do Ceará, é: poesia narrativa, popular, impressa.

Sendo este o meio popular de se expressar surge a inevitável questão: Que povo é este que se expressa desta maneira?

"Antes dos Mouros" não é apenas de um mito de criação em forma de cordel. É provavelmente o mito de criação do povo brasileiro. De todos eles. Segundo o Cordel do Fogo Encantado, a saudade é que criou o início quando atravessou o além-mar. Mas antes, já existia o som.

Que som é este que existia antes? O que querem nos dizer as "árias de ar e poeira"? O fogo é o criador ou também sempre existiu? Mais impressionante é que mesmo com o mar a ameaçá-lo, o compasso do batuque nunca atrasará e o fogo seguirá em sua dança, toda a vida fazendo som.

A primeira vista, nos passa despercebida a sutileza do Cordel do Fogo Encantado. Sim, existe sutileza no meio do batuque. E a sutileza pode ter o peso de um trovão. Por isso estão juntos o batuque, o trovão, o popular e o erudito. Erudito que é percebido aos poucos na concepção do arranjo e na harmonia do violão.

Talvez o grande drama da História do CFE, seja que antes dele, já existiu o rock, Dominguinhos já trouxe a música nordestina para o resto do Brasil e principalmente, o Recife, sob a forma de mangue-beat, explorou tudo isso. Resta, então, ao CFE mostrar sua poesia narrativa, popular, seu canto do povo de algum lugar. E com que maestria faz isso. E que povo é esse?? Somos nós. Do mesmo modo que somos nós que, segundo Tatit, iremos um dia conquistar "um meio para não começar".

O ponto de convergência destes dois modos de ver o tempo é curioso. Ambos não gostam do começo. Um por sempre existir, outro por querer estar sempre no meio.
Enquanto o CFE "esconde" a complexidade na simplicidade de sua música, Luiz Tatit escancara sua erudição de modo simples, trata do simples de modo complexo.

Ambos falam do início. Se para Tatit, era "metáfora pura suspensa no ar", para o Cordel antes já tinha som. E Tatit concorda elegantemente dizendo "sem muito rodeio no princípio era o meio, e o meio era bom, depois é que veio o verbo, um pouco mais lerdo, que tornou tudo bem mais difícil. Criou o real, criou o fictício, criou o natural, criou o artifício, criou o final, criou o início. O início que agora deu nisso". Ou seja, para existir o antes é preciso ter um início. Só que o Cordel continua com a razão dizendo que antes ainda, havia o som. Não importa o início.

Tatit até concorda com isso. Sua música não começa. Está sempre no meio. O começo é anacruse, ou, começa antes do começo. Luiz canta sempre a meia voz e esta sempre na região média da voz.

Tatit sofre a influência do CFE ao dizer que "voltando no tempo faria outro som", provavelmente aquele que já existia, mas quase se contradiz (tem gente que nunca sai do começo) e ao mesmo tempo explica que, por isso, o meio é tão melhor.

Independente de A ou B, o início é essencial; sua força motriz é o que nos dá impulso para alcançar tudo o que vem depois. Se é verdadeira a história do antes que foi contada por mandacaru, atestada pela certeza e modelada pela noite, apenas um doce sonho sobre o início que agora deu nisso pode nos confirmar.

Mas de uma coisa temos que concordar: antes já fazia som e depois do começo passar tudo tomou seu lugar e cada qual com seu canto por certo ainda vai encontrar um meio para nos alegrar.

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Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

Despedida

Em um belo dia, há cerca de 1 mês atrás, nos reunimos virtualmente e chegamos a uma ou duas conclusões:

- Leitores esperam que blogs sejam mais dinâmicos. O nosso, propositalmente, não era. Poderia dar certo no longo prazo, mas estávamos sem ânimo e paciência para tentar.

- Nossas opiniões são, de certa forma, irrelevantes. Há tantos outros colunistas muito mais competentes do que os que faziam parte de A Semana do Presidente, que cancelar esse blog, e liberar tempo de nossos leitores, seria um grande ato de nobreza.

Por isso, desejamos a todos um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

Quinta-feira, Novembro 03, 2005

Amostra de Cinema

Todo ano cinéfilos de plantão, como é o meu caso, entram em alvoroço por causa da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. São centenas de filmes de dezenas de países diferentes que passam em diversas salas de cinema durante cerca de 2 semanas.

Entretanto, nos últimos anos, a Mostra se tornou mais do que um templo de cinéfilos, onde todos que seguem a religião vão rezar a cartilha da telona. Seria como se, aos poucos, cristãos e judeus começassem a frequentar a peregrinação anual à Meca, na Arábia Saudita.

É assim que interpreto a crescente procura por filmes da Mostra, que resulta em filas infernais formadas antes da abertura das bilheterias. Assim, a quem queira ver um filme a partir das 19:00 de segunda-feira, mesmo que bastante desconhecido, é altamente recomendado comprar o ingresso um dia antes, pela internet, ou então logo de manhã, na própria bilheteria. É o preço que se paga por um produto "hype", procurado mais pelo status do que por suas características intrínsecas.

Por outro lado, a penetração cada vez maior que o evento consegue no público acostumado ao mainstream é sinal de sucesso mercadológico, e não artístico, é bom dizer! Mas também, o que é arte? Como não vou entrar nesse mérito no presente momento, não me resta outra alternativa a não ser cumprimentar seus idealizadores e organizadores pelo bom trabalho.

O desafio para as próximas edições será encontrar um ponto ótimo entre a popularização e o espírito inicial da Mostra. A equação é simples e perigosa. Mais público gera maior divulgação e mídia espontânea, que consequentemente atrai mais empresas. E assim o círculo, em um primeiro momento, virtuoso, pode sair pela culatra e acabar com a festa dos ratos de cinema. O equilíbrio é tênue, e torço fortemente para que seja atingido com sabedoria!

Enfim, nesta 29ª edição, tive o prazer de assistir 5 bons filmes, e nenhum ruim. Então, aproveito esse espaço para brincar de crítico e resenhar sobre as obras que pude apreciar:

Os Incautos - Se você gostou do bom "Nove Rainhas", filme argentino que estreou nessas terras há algumas mostras atrás, e depois seguiu com relativo sucesso pelo circuito normal e locadoras de grande porte, não há como não gostar desse clone espanhol. A história não é a mesma, mas a toada do filme segue no mesmo ritmo de seu primo da ex-colônia. Em um ritmo bastante dinâmico, o expectador se depara com a história de uma trupe de trapaceiros e suas aventuras. Incautos, ou trouxas, são as vítimas desses espertos fora da lei

Beba e Dora - Falando de ex-colônicas, Beba e Dora é uma bela fábula da miséria Argentina. Beba, uma madame falida, tenta manter a todo custo seu apartamento de luxo e as demais comodidades de uma vida que não volta. Afetuosamente abandonada pelo marido, por causa da separação, e pela filha, uma lésbica tentando a vida na Espanha, Beba se apóia na fiel empregada, Dora, uma índia que possui um lado típico de brava mama italiana e outro que inspira soliedariedade. No final, ambas se abraçam na miséria, em um final bastante inesperado.

Atravessando a Ponte - Músico europeu se encanta pela vibração e emoção da música do terceiro mundo. Clichê maior que esse não há, mas o filme se salva bem, ao menos para nós brasileiros, devido ao fato de que o destino é a Turquia, exótica também para nós. Indo do rap à música pop local, um baixista alemão vai conhecendo todas as facetas musicais do país que se divide entre o ocidente e o oriente. Istambul, antiga Constantinopla, é um polo capaz de fundir ritmos desses mundos. Infelizmente, a música desse país quase europeu não é capaz de me convencer de que Arábia Saudita, Iraque ou China farão um bem bolado de ditadura oriental com democracia ocidental. Para esses povos, restará cantar a dor do aprisionamento da alma por muito tempo.

O Último Miterrand - Depois de "A Queda - As Últimas Horas de Hitler", temos aqui um similar, contando os últimos meses do lendário presidente francês François Miterrand. Menos explosivo, mas igualmente denso, o filme conta as última impressões de um monstro político que traiu a direita e terminou desacreditado pela esquerda. Mesmo com algumas controversas não resolvidas durante o filme, que por sua vez é baseado em um livro, há momentos de grande sabedoria que devem ser objetos de profunda observação. Há pouco tempo de perder o poder e a vida, Miterrand discursa sobre clichês idiotas como a globalização e o poder das grandes empresas, mas há momentos de extrema lucidez onde refuta a utopia comunista, aceitando as regras do jogo, e demoniza o monopólio, exaltando a competição no mercado. Depois de assistir esses dois ótimos filmes, fiquei imaginando o Festival de Cannes passando "A Queda - As Últimas Horas de Lula". Resta saber se será nas próximas eleições, no impeachment ou na prisão, respondendo sobre o caso Celso Daniel.

Por Dentro da Garganta Profunda - Leve, engraçado e picante. O bom documentário sobre o polêmico filme "Garganta Profunda", não poderia ser diferente. Primeiro, e talvez único, pornô a penetrar (sem duplo sentido) no circuito mainstream, o filme que estreiou no começo dos anos 70 nos Estados Unidos foi um sucesso de bilheteria e polêmica. Liberais contra conservadores. Democratas contra Republicanos. CIA contra máfia italiana. O metiê de conflitos era vasto, e o filme encontrava-se na encruzilhada de todos eles. Desse caldo também nascia a popstar Linda Lovelace, que anos mais tarde viria a se juntar às feministas, fazendo uma cruzada contra a pornografia. Todos esses fatores fizeram esse um dos maiores mitos da história do cinema. O documentário é obrigatório, o filme em si provavelmente não.

Sexta-feira, Outubro 28, 2005

Dirceu e seus carneirinhos

O país entrou num patamar insuportável no cenário político. Quando me proponho a escrever algo que não tenha essa tema como foco, algo de macabro acontece em Pindorama, e me viro novamente às nossas pobrezas governamentais.

José Dirceu acaba de ganhar um manifesto de algumas ´personalidades´ indignadas com a possibilidade de que seja cassado. Vocês ouviram: os fervorosos em defesa de Dirceu e do Partido dos Trabalhadores resolveram voltar. O que me encanta é o fato de algumas delas sempre terem participado, direta ou indiretamente, nas campanhas do PT, mas terem dado um ´tempo´ durantes os últimos dois anos.

Desde que foi levantada a teia da corrupção deste governo, quen involve ao mesmo tempo os poderes executivo e legislativo numa magnitude nunca vista nos centros da roubalheira, não vi qualquer um deles abrir a boca. Não obstante, essa semana foi "especial". Já na segunda-feira, vi partes do programa Roda Viva, onde se entrevistava José Dirceu. Eu devo estar ficando louco, mas vi Beth Carvalho sentadinha lá, fazendo perguntas e expressando, ainda que não quisesse, seu apreço por Hugo Chávez. Sei lá, vai ver eu estava tendo visões do meu incosciente, onde uma sambista fazia perguntas clichês e burras. Beth, faltou o panfleto na sua mão!

Ontem, num misto de cinismo e sem vergonhice (não sei qual deles é maior), Lula protagonizou uma propaganda política gigantesca. Um show, uma megaprodução construída para aliviar a lama que já está ao nível do pescoço deste presidente medíocre e moribundo que temos. Aproveitou para demonizar (que novidade!), o governo FHC (será que ele esqueceu que Fernando Henrique deixou a presidência há quase três anos, e que ele ganhou em 2002?), e tentou dar início à pavimentação de sua segunda candidatura em 2006.

José Dirceu, em uma rápida entrevista na TV, afirmou que pretende reconstruir sua vida política do zero, e reconheceu que precisa de muita humildade. É um lamento. Um comentário digno de pessoas altamente prepotentes como ele. São palavras que não nos remetem mais à simples indignação, mas a um completo estado de náusea. Há um cenário montado, agindo como se o valerioduto, a morte de Celso Daniel e outras gravidades fossem águas passadas, ´detalhes´ já acertados.

Mas vamos ao manifesto. Acredito que pessoas possam defender o quanto quiserem um candidato à presidência, bem como seus principais ministros (ex-ministros, neste caso). Mas tudo precisa de coerência, cada vez mais escassa quando famosos resolvem se pronunciar. Como já disse, todos estavam quietos, como se torcessem para não serem vistos, igual àquelas situações onde o professor carrasco nos escolhe para respondermos suas perguntas mais difíceis durante a aula.

Ao primeiro sinal de saída em defesa coletiva, essas criaturinhas põem as cabeças para fora dos buracos e começam tudo outra vez. O documento diz que há uma onda de "especulações" contra o governo, que não existem "provas concretas", e que José Dirceu "não pode ser cassado para saciar a fome de vingança das forças que historicamente resistiram às mudanças e aos sonhos".

Dou razão apenas ao último trecho, que trata das mudanças e dos sonhos. E afirmo: eu resisto a essas mudanças e a esses sonhos, e não tenho vergonha de admitir tal fato. Aliás, posso me declarar contra qualquer sonho e mudança que o Sr. Dirceu queira concretizar. Por mim, pode pegar as suas coisas e ir pra casa. Zé, já vimos o suficiente, tá bom? A partir de agora, sonhe apenas em casa. Os tempos de fuzil e treinamento em Cuba já se foram.

Não vou perder meu tempo divulgando os nomes das ´celebridades´ que assinaram o manifesto, em respeito aos que lêem este blog. Muitos são os cretinos com que somos obrigados a nos deparar diariamente. A cara-de-pau de alguns desses senhores é tão grande, e seu oportunismo tão evidente, que resolvi aproveitar a situação e lançar um outro manifesto para eles assinarem. O título? ´Em defesa da democracia, da Constituição e do pensamento obtuso: os defensores de José Dirceu que não querem e não sabem explicar como o país foi parar onde parou´.

Lula, Dirceu e companhia precisam de um golpe do tipo ´knockout´. Diz-se que lobos perdem o pêlo, mas não perdem o vício. Neste caso, os lobos políticos precisam de um belo chute no traseiro, de uma paulada forte o suficiente para não serem capazes de submeter o país a esses ridículos novamente. Já seus defensores, esses não têm remédio. São uma espécie de elite da bobagem, um esquadrão da idiotice que não aprende absolutamente nada com o passar do tempo.

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

As urnas do Iraque


Este texto tem a preocupação de colocar sob o foco de luz uma notícia que, ultimamente, parece estar recebendo uma atenção menor do que a devida: o julgamento do ex-presidente do Iraque, Saddam Hussein, e todo o assunto de fundo que envolve esta etapa importante da relação ocidente e mundo islâmico.

Farei o possível esforço para não ser muito rígido nas primeiras linhas, pois muitos leitores torcerão o nariz para o meu pedido de pensarem criticamente este assunto aqui tratado. A razão disso é que há uma infinidade de gente que se diz bem informada e, ao ouvir a palavra Iraque, dispara adjetivos impublicáveis contra George Bush. É uma espécie de reação pavloviana bastante pitoresca, à medida que evidencia que os informados não são tão informados assim, ou apenas fazem sua patrulha ideológica a varrer. Uma perda de tempo.

Desde o começo da guerra no Afeganistão, há milhares de questões nebulosas a respeito do desfecho desse caos local misturado com ação geopolítica em resposta aos atentados terroristas. Ouço todos os dias, como um mantra, que os atos terroristas são apenas uma resposta à "opressão" que o ocidente exerce sobre o povo islâmico. Uma bobagem: terroristas são indivíduos radicais, que estão dispostos a matar qualquer um. Jornalistas, turistas, e até civis compatriotas. É uma vontade desenfreada de expurgar do seu mundo tudo o que não lhes convêm, todos que não são igualmente radicais às suas crenças. Os politicamente corretos gostam de passar a idéia de que, se Bush adotar a linha paz e amor, os terroristas também o farão.

Neste sentido, não custa lembrar os leitores que os atentados vêm sendo postos em prática em escala global há tempos (alguns sérios no final dos anos 80), e não nos últimos anos. Ficando apenas nos mais recentes, houve o assassinato de um jornalista renomado na Holanda, a explosão dos metrôs de Madri e de Londres, e o episódio do ´World Trade Center´ nos EUA. A meu ver, essa tendência de crimes absurdos dá aos governos ocidentais um limite para o diálogo pacifista com os extremistas. É uma espécie de prova de fogo: se o diálogo não os barra de agir violentamente, há de se ter uma resposta no campo geopolítico. Se nada for feito, ficará evidente, em nível estratégico, que os países ocidentais não passam de "tigres de papel".

Voltemos, então, ao caso Saddam Hussein. Apesar do adiamento do julgamento conseguido pelos advogados do ex-ditador - agora marcado para o final de novembro - teremos a oportunidade de presenciar a sentença de um homem acusado de diversos crimes contra a humanidade, e que há 24 anos deita e rola naquele país, promovendo injustiças e pobrezas em todos os níveis. Além de ter ordenado a tortura e o assassinato de uma série de pessoas, desde a invasão foram encontradas no Iraque dezenas de valas onde eram depositados cadáveres humanos (inclusive de crianças).

Apesar de todos os problemas e questões que surgem em razão de uma guerra, e de todas as incertezas que a população iraquiana ainda tem, a verdade é que uma parcela da população, os xiitas e os curdos, tem num suposto regime democrático a esperança de verem seus direitos enfim respeitados, ao passo que os sunitas, tendo perdido os privilégios que tinham com o regime totalitário de Saddam, temem se tornar uma minoria perseguida.

Recentemente, o país levou à votação um referendo a respeito de uma nova constituição no país (sim, em alguns lugares do planeta existem referendos úteis). No referendo anterior, os sunitas entraram em choque com os exércitos ocupantes, pois queriam impedir até mesmo as votações. Dessa vez, as eleições transcorreram de maneira tranquila, e com maior adesão. Xiitas e curdos, que somados correspondem a 80% da população iraquiana, votaram em favor dessa "reforma constitucional", e alguns sunitas votaram contra a medida, mas votaram.

O desafio atual do país é abrir o processo democrático sem que haja rachaduras entre esses grupos, o que fica especialmente difícil pelas localizações das reservas petrolíferas. Nada mais normal, pois saem de um regime de medo e imposição que durou quase três décadas. Com o julgamento de Saddam, devemos esperar que os iraquianos saiam fortalecidos em relação ao sentimento de participação política no governo de seu país, anteriormente uma mera utopia.

E se a população entender que pode haver uma unidade dentro país, e que ela pode ser atingida de maneira democrática, poderemos enfim acompanhar um momento de virada em todo esse dilema começado há dois anos atrás. Houve muitos erros, mas há muitos iraquianos que estão experimentando pela primeira vez o que é poder ter liberdade de escolha e saber que sua contribuição servirá, finalmente, aos assuntos do seu país.

Se o leitor tem raiva de George Bush, e o culpa até pelo Katrina, sem problemas. Mas deveria saber que se informar, por vezes, pode ajudá-lo a não cair no ridículo intelectual, e a não fazer de problemas bastante complexos, como relações internacionais tensas, meras conversas de botequim (com perdão a esses espaços sagrados).

A mídia brasileira frequentemente escolhe a intensidade com que mostrará certas notícias. E isso deriva de um perfil ideológico que não esconde o pó da velhice, já de décadas. No caso do Iraque, mostrar o que pode vir a ser bom não tem graça. A diversão está em esculhambar diariamente Bush e Blair, principalmente o primeiro.

Mesmo com os problemas e erros que uma ocupação traz, aliados a um plano político muito ruim, uma oportunidade de garantir as liberdades individuais dos cidadãos é importantíssima. Para quem detesta essa idéia, e acha que Saddam está sendo sacaneado, mude-se para um desses países com pequenos tiranos de plantão e fique por lá. Gosto não se discute, mas viva o que você acredita.

O radicalismo religioso que funciona à base da violência preciso ser contido, pois não está, há tempos, restrito aos países de sua origem. E a coragem para começar esse movimento é para poucos. Vejo um saldo positivo, apesar de ser uma questão com incontáveis desdobramentos. E torço para que a população iraquiana possa garantir, em definitivo, um país melhor e mais livre.

Segunda-feira, Outubro 10, 2005

O capitalismo inteligente



Em uma de suas últimas colunas João Sayad reclamou do comércio livre. Foi apologista àquele velho discurso, ainda muito usado, de que a queda de barreiras tarifárias extinguirá a cultura dos povos e arruinará países. Por esse racioncínio, as especialidades culinárias de um local, por exemplo, sairão do mercado e então serão ofertados produtos globais, como café do Starbucks e hambúrgueres do Burguer King.

Isso tudo decorreria do fato de que as pessoas irão atrás do menor preço e da comodidade, e portanto o mal triunfaria, logo o vendedor de picolés Pingüin seria obrigado a fechar sua barraquinha e ir trabalhar em uma loja da Nestlè.

Sempre aprendi que o comércio era uma coisa boa. O pouco que estudei de economia nunca disse o contrário. O pouco que estudei de História não me mostrou exemplos de países que faziam comércio (seguindo as idéias liberais) se dando mal. O comércio não é forçado, é algo bom para ambas as partes, um compra um bem que deseja, o outro consegue vender um bem que possui, também por vontade própria. Fim da conversa. A lei da oferta e procura consegue fazer maravilhas, só precisa de uns ajustes de vez em quando.

O detalhe está justamente em perceber que as pessoas compram aquilo que desejam, e isso é um tanto complexo. Um cidadão não deseja apenas um produto isoladamente, ele também almeja uma específica configuração social. Quando compra uma mercadoria está financiando uma estrutura específica.

Um americano que não gostaria que suas siderúrgicas tenham dificuldades para se manter no mercado não deve comprar produtos fabricados com aço brasileiro. Mas pagará mais caro por isso.É mister que um brasileiro que compra produtos importados tenha em mente que isso debilita a produção nacional, e precisa pensar em todas as conseqüencias disso.

Percebam, contudo, que as escolhas devem ser delegadas aos próprio homens comuns. Estados que tiram decisões das mãos dos habitantes são os autoritários.

Não sou um extremo liberal, acredito que o Estado deva exercer certa influência. Sempre visando o bem comum. Mas qual seria esse bem? Será que a população prefere consumir eletrônicos importados mais baratos a sustentar uma geralmente atrasada indústria tecnológica brasileira? Será que os argentinos pararão de tomar seus ótimos vinhos e comprarão somente a bebida brasileira, de inferiores preço e qualidade? Os queijos Suíços cederão seu espaço nas gôndolas para os mineiros? Se os americanos quiserem acabar com sua indústria de laranaja e só tomarem o suco brasileiro, quem sofrerá a conseqüência (boas e ruins) serão eles.

Alguns anos atrás Umberto Eco sugeriu aos italianos que sentiam repúdio por Silvio Berlusconi um modo diferente e eficaz de atingi-lo. Umberto propôs que parássemos de comprar os produtos das empresas do magnata e também os de outras empresas que anunciassem em seus canais de televisão. A campanha teve algum efeito.

A próxima vez que exercer seu poder de compra, lembre-se de que muito mais do que o fluxo da posse de um item está em jogo. Mas não esqueça de sempre reclamar para si o direito de fazer essas escohas, afinal é através delas que o regime democrático se manifesta.

Quarta-feira, Outubro 05, 2005

Não


Por vezes, já deixei clara minha opinião sobre a questão do desarmamento. Num outro fórum onde escrevo, já havia apontado e enumerado diversos motivos pelos quais voto “não”. Não busquei ainda os dados sobre os possíveis resultados dessa votação, mas temo que a opção pela proibição da comercialização das armas de fogo aconteça. Assim, acredito que possa ampliar o debate sobre o assunto até o dia 23 de outubro.

Em primeiro lugar, voto “não” por um princípio liberal. Não quero comprar uma arma de fogo, mas isso decido eu. Não aceito, em hipótese alguma, que o Estado me diga, no que se refere à minha defesa, o que seria melhor para mim. Lembrando Pessoa, em Lisbon Revisited: “Não me peguem no braço! / Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho. / Já disse que sou sozinho! / Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!”.

Tenho como frágil o raciocínio de que, como já sabemos que é perigoso enfrentar os criminosos, seria melhor mesmo sermos vítimas mais inteligentes. Se pudermos investir pesadamente em educação, e quisermos promover campanhas de conscientização a respeito do tema violência, ótimo. Mas não me venham resolver o problema pelo avesso. Banir o comércio de armas é uma saída falsa para o despreparo do governo em garantir segurança pública eficaz.

Ademais, há um clima forte do politicamente correto no ar quando o assunto são armas. Quem vota "sim" o faz, e não precisa fazer muitas considerações sobre o assunto. Já a decisão pelo "não" provoca caras e mais caras de espanto. E sei disso por experiência. Já me expliquei inúmeras vezes. Cada vez que digo "não", preciso fazer uma espécie de tese instantânea para acalmar o ouvinte. Não há saída, suportar um "não" exige um entendimento mais amplo do assunto, que vai um pouco além da fobia de armas de fogo e de estatísticas maquiadas.

Como se não bastasse, tenho visto algumas propagandas na TV que lutam pelo “sim”. Ontem, assisti a dois comentários primorosos. No primeiro, uma mulher, que trabalha na Rede Globo (defensora declarada do "sim" desde o início), afirmava: “se mata, não pode ser legal”. Numa outra cena, um DJ, também conhecido em nível nacional, explicava o tema: “as crianças são o futuro do Brasil”. Se essas são as razões para um “não” de pessoas supostamente esclarecidas – ora, estão na campanha defendendo uma opinião! – lamento profundamente. Há uma miopia horrenda de entendimento do problema. Um sentimento quase romântico que manda às favas a honestidade intelectual para discutirmos um tema de tamanha gravidade.

Algumas pessoas que conheço que votarão pelo “sim” afirmam, sem qualquer constrangimento, que a decisão de fato não impactará numa redução da violência. Já me explicaram que é um passo para acabar com esse Brasil "machista", "rural" e "conservador", que precisa se desarmar para dar lugar a um "homem mais democrático". Não importa o que você diga ou os dados que você mostre, a dificuldade para derrubar tais crenças é enorme. Essas pessoas vivem num transe extraterreno de explicar problemas criativamente. Vai ver a realidade é chata, óbvia demais. Legal é dar explicações "originais".

Se aprovado o referendo, o Brasil estará dividido em mais duas categorias: os com armas e os sem armas. Como as empresas privadas de segurança continuarão funcionando, quem tiver poder aquisitivo, continuará andando sossegado. Os que não têm poder de compra para garantir sua segurança via terceiros contratados, estarão literalmente perdidos.

Nas propriedades rurais, onde é prática comum ter armas, pois não há pulverização de ação policial adequada, e é imprescindível fazer a segurança dos terrenos, o problema será agudo. Um convite a invasões do MST. Não haverá melhor notícia para Stédile, que deve estar torcendo para o desarmamento passar.

Há grande possibilidade do “sim” vencer. E grande possibilidade de haver um sentimento de “o que foi que eu fiz?”, por grande parte dos brasileiros, logo após a proibição do comércio de armas de fogo. Será frustrante... E tarde demais. Em suma, estaremos diante de um novo quadro. Os cidadãos terão aberto mão dos meios legais de força, que se concentrarão, consequentemente, com a polícia, com o exército e com o narcotráfico. São as armas legais que estão em jogo. Não se legaliza o que já é ilícito, e os crimes por acidente com armas de fogo são uma porcentagem mínima no total de homicídios.

Não há dados que mostrem diminuição da violência em países que adotaram a prática. Não se fala em Plano de Segurança, em união de polícias militar e civil, ou em entrega de presídios de segurança máxima que tinham sido prometidos por Thomaz Bastos. A esperança agora é o desarmamento. O Brasil precisa parar com essa ilusão de que pode resolver problemões com decisõesinhas. Precisa parar de achar que pode revogar, por decreto, leis econômicas. Neste caso, a demanda por armas e munição se manterá, e serão adquiridas pelo mercado negro.

Coloco minhas afirmações à prova, e convido todos para um debate de qualidade. E sem neutralidade, essa posição um tanto cretina que não requer comprometimento em divulgar fontes fidedignas do que é dito. Ficar imparcial numa questão dessas é incoerente, uma vez que as opções são excludentes.

Quanto mais sinceras e opostas as opiniões, mais clara será a realidade de comparação dos eleitores. A Veja escolheu seu lado. A Trip escolheu seu lado. E assim deve ser, sem hipocrisia, porque o eventual resultado do referendo servirá a todos. Eu voto “NÃO” ao desarmamento.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

Nem Atenas nem Esparta, Beócia.

Muitos pensadores atuais dizem que a humanidade está passando por um período médio de baixa inteligência. Afirmam isso baseados em algumas atividades praticadas e atitudes tomadas por grandes massas populacionais.

Dentre essas atividades pouco intelectualmente nobres estão incluídas assistir a reality shows (um fenômeno mundial), votar em candidatos com idéias ultrapassadas (Bush, Jean Marie Le Pen, Silvio Berlusconi, etc.) e a formação de grupos sociais para os fins mais primitivos (terroristas, torcedores selvagens, religiões absurdas).

A idéia de que o terráqueo de hoje é mais burro que o terráqueo de outrora é no mínimo estranha. Não é preciso muito esforço mental para chegar a conclusão que um operário do século XIX, um camponês do século XIX ou um servo da idade média têm menos capacidade cognitiva que um operário dos dias de hoje.

O mesmo raciocínio se aplica quando comparamos nobres do passado e pessoas que pertencem as elites hoje. O ensino superior é amplamente difundido nos dias atuais. Sua qualidade é muito questionável, mas os centros de excelência no ensino aumentaram de quantidade.

É preciso lembrar também que hoje o ensino é mais universal do que era no passado. Existem pessoas, em diversos países do mundo, que conseguem estudar mesmo sendo de classes sociais mais baixas. Este é um fato tão consolidado que existe uma corrente de "pensamento" que alega que todos deveriam ter acesso ao ensino público.

O desconforto atual não é gerado pelo fato de sermos mais ignorantes que nossos avós, e sim pelo fato de estarmos atuando muito abaixo de nosso potencial. E isso ocorre não apenas pela indolência do homem, mas também porque as facilidades hoje são enormemente maiores.

O fato de sabermos que uma ferramenta tão poderosa quanto a T.V. é usada de forma frívola quando reality shows são exibidos é angustiante. Entendam por favor, os reality shows são apenas um exemplo, a programação estúpida vai muito além disso.

Hoje em dia estamos vivendo em prejuízo cultural. Temos condições de sermos melhores do que somos, mais cultos, mais inteligentes, mas não fazemos uso de nossos recursos totalmente. E é por desperdiçar uma oportunidade histórica única de ampliar os standards intelectuais de nossa sociedade (global), a níveis muito acima dos atuais, que somos levianos.

Quinta-feira, Setembro 29, 2005

O Poder da Fé

Outro dia pensava em como a escolha pelo ateísmo implica em certas desvantagens sociais. Poderia estar falando da cara de espanto que alguns fiéis, pouco pluralistas do ponto de vista religioso, fazem ao saber do meu modo não ortodoxo de enxergar o mundo. Mas o buraco é mais embaixo.

Ao longo do tempo, a religião aparentemente sempre foi algo capaz de unir as pessoas, e não só no sentido da missa dominical e equivalentes. As comunidades que frequentam uma igreja, templo, sinagoga ou qualquer outro prédio religioso em particular, tem por costume (e instinto de sobrevivência) o estabelecimento de relações outras que vão além da fé, mas se utilizam dela para se estabelecer.

Explico. Mais do que comum, é quase natural que pessoas de uma mesma comunidade religiosa formem uma rede de tráfico de influências. Algum fiel está desempregado? O sacerdote dá um jeito de arranjar uma vaga. Está precisando de um favorzinho junto ao poder público? É só conversar com a bancada do respectivo Deus. Quer descolar um VIP para aquele evento maneiro? Se não houver nenhuma forma de veneração às forças do mal, alguém consegue para você. Vai passar mais uma data festiva sozinho? Não se preocupe, os irmão estarão te esperando para celebrá-la em uma inesquecível união de fé!

Pode até parecer que estou condenando a prática, mas não! Na realidade tenho inveja daqueles que podem usufruir dessas facilidades. Há tempos me pergunto o que poderia ser equivalente a isso para um ateu. Algumas hipóteses logo se mostraram falhas. Clube do charuto, time de futebol de várzea, partido político ou comunidade do Orkut. Todas esses são exemplos de grupos de pessoas envoltos por uma mesma causa ou interesse, assim como as comunidades religiosas, mas aparentemente falta aí algum tempero.

Essa especiaria ímpar, da qual dificilmente poderei provar algum dia, chama-se fé. Posso gostar muito de charutos, mas parar de fumar por causa de um câncer. Um time de futebol de várzea pode parecer um dignificante desafio, até que o craque do time se aposente e os outros, diante de uma série de derrotas, percam a vontade de continuar. Sobre partidos políticos nem é preciso falar muito...troca-se de casa mais facilmente do que se troca marca de cerveja. Ora, não é o caso de dizer que ninguém troca de Deus, mas a probabilidade disso acontecer é realmente muito diminuta. Diferentemente dos exemplos anteriores, a religião geralmente entra na vida das pessoas de maneira "absoluta" e "eterna".

Assim, a fé mantém o elã do grupo que se reune em seu entorno. Prazeres, times e ideologias podem ser trocados com relativa facilidade, religiões não. Indo para um campo que foge às vontades de Deus, podemos exemplificar o poder da fé com a economia. Uma nota de dinheiro efetivamente é só um pedaço de papel, sem nenhum valor intrínseco. Para que a economia gire de forma eficiente, é preciso que todos os agentes de uma sociedade acreditem no valor de sua moeda. No dia em que o padeiro da esquina deixar de acreditar que uma nota qualquer equivale à uma quantidade específica de pães, a economia entrará em colapso. A fé no dinheiro é muito forte, acreditem, por isso uma catastofre dessas dificilmente acontecerá.

Enquanto minha fé se restringe a esta última, procuro um grupo que possa me acolher sem que seja um clube de Wall Street ou me obrigue a acreditar em Deus. Se um dia estiver desempregado, precisando de um convite ou querendo livrar meu filho do exército, com certeza sentirei falta de pertencer a uma rede informal de tráfico de influências. E vejam só, mesmo estando na pior, ainda assim não terei para quem rezar. Vida de ateu é muito dura mesmo.

Ah! Quem sabe a solução não esteja nos noticiários? O Bispo Edir Macedo acabou de criar um partido, o PMR, Partido Municipalista Renovador. Se um dia precisar de um mensalão, quer dizer, dizimão, já sei a quem recorrer...