Quarta-feira, Setembro 21, 2005

Silenciando


O silêncio dos intelectuais. Esse foi o nome do primeiro ciclo de palestras ocorrido na UFMS. A trilogia - nome bem aos moldes de uma boa ficção científica que se passa no plano estelar, carrega o título "Cultura e Pensamento em Tempos de Incerteza", e é organizado pelo MEC (Ministério da Educação), MinC (Ministério da Cultura), RNP (Rede Nacional de Pesquisa) e Petrobrás. Quer dizer, Governo Federal, representado por alguns de seus órgãos, e seu filhote monopolista do petróleo, montam o evento para "discutir" os tempos turbulentos, o espírito político e o silêncio como forma de reflexão. Parece bonito, vamos ver.

A abertura é ótima: um dia de marxismo e outro de Sartre. Com um começo desses, eu também me silenciaria. De anestesia cerebral. Anos vão, anos vêm, e esses intelectuais brasileiros não arredam pé do mofo ideológico, impressionante! Alguém tem que chacoalhá-los e explicar-lhes que algumas décadas se passaram, que esses autores já foram surrados no campo das idéias, que a União Soviética acabou, e que o Brasil inclusive já é pentacampeão mundial de futebol. Adiante.

Marilena Chauí, que é paga com dinheiro do contribuinte há muito tempo para se alinhar a um partido político, fato grotesco em qualquer universidade pública séria, comentou que "o silêncio é um dever". Fiquei curioso: dever de quem? Da sociedade? Do seu grupo de pensadores? Do PT ao Brasil? A última opção me é mais realista, pois aos antigos tagarelas ideológicos agora restou somente a opção de calar a boca, ou de se explicarem, o que obviamente não farão.

Mas o debate começou, e lá estava a entendida para explicar as razões do PT não ter dado certo: "a primeira ação [do governo] deveria ter sido a reforma tributária para que houvesse distribuição de renda e o Fome Zero fosse possível. Mas a primeira reforma feita foi a previdenciária, a que Fernando Henrique não teve coragem de fazer". É de uma maldade ímpar: a reforma não passou por falta de apoio, do PT na época, para refrescar as mentes esquecidas. Vou além: esta é uma frase sem o menor sentido lógico. Marilena parece usar seu nome e porte para proferir o que lhe vier à cabeça. Quem consegue conectar reforma tributária com Programa Fome Zero, e ainda se levar a sério, ou é um farsante ou ignora qualquer conhecimento em matéria de política e economia.

É preciso também desconstruir o conceito de intelectuais neste caso. Quando lemos o nome do ciclo de palestras, somos levados a achar que toda a classe de intelectuais, cientistas políticos e outros tantos analistas estão calados, e pensam como pensam estes senhores. Tudo devido à visão míope de mundo que possuem, pois quem não raciocina como eles não pensa o processo político direito. Querem apresentar sua falência como falência de uma coletividade. Não me incluam nessa, queridos.

Há muitas pessoas, embora possam ser desconhecidas para o público em geral, que passaram estes últimos anos alertando para o que viria a ocorrer com o Governo Federal, para seu rasgo autoritário, sua imaturidade no campo das relações externas, para sua política continuísta incoerente com seu discurso messiânico, enfim, com tudo o que era aberrante e totalitário. E ao longo desse tempo, todos estes que contribuíram com a anulação das forças petistas, eram chamados de "direitistas ressentidos", "anticomunistas", "fascistas", "milicos", "imperialistas", etc. Contudo, as críticas ao governo não pararam em momento algum.

Pois bem, ó esquerda iluminada!, beautiful people por definição, que não admite raciocínios democráticos na sua linha de pensamento, já que atua desde sempre interferindo nas liberdades individuais: o Conselho de Jornalismo não passou, a Ancinav não vingou, o mensalão apareceu, o ministro "herói" caiu, e outras tantas medidas que iam sendo enfiadas goela abaixo foram derrubadas, uma a uma.

Admitir o tal silêncio dos intelectuais é generalizar a expressão em favor do pensamento esquerdista, como se fosse uma falência de todos. Repartir a culpa quando tudo o que era defendido vai por água a baixo é leviano. Por isso, meus queridos mudos por ocasião, não digam que fracassamos. Arranjem alguma dignidade e admitam que os outros venceram.

2 Comments:

Anonymous Beto said...

"mofo ideológico" é isso mesmo, bem definido.

21/9/05 19:38  
Blogger Antonio Rayol said...

Um intelectual é útil à sociedade por compartilhar seus conhecimentos, principalmente em momentos de crise.
Um intelectual calado não serve para nada.

21/9/05 22:09  

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