Segunda-feira, Outubro 10, 2005

O capitalismo inteligente



Em uma de suas últimas colunas João Sayad reclamou do comércio livre. Foi apologista àquele velho discurso, ainda muito usado, de que a queda de barreiras tarifárias extinguirá a cultura dos povos e arruinará países. Por esse racioncínio, as especialidades culinárias de um local, por exemplo, sairão do mercado e então serão ofertados produtos globais, como café do Starbucks e hambúrgueres do Burguer King.

Isso tudo decorreria do fato de que as pessoas irão atrás do menor preço e da comodidade, e portanto o mal triunfaria, logo o vendedor de picolés Pingüin seria obrigado a fechar sua barraquinha e ir trabalhar em uma loja da Nestlè.

Sempre aprendi que o comércio era uma coisa boa. O pouco que estudei de economia nunca disse o contrário. O pouco que estudei de História não me mostrou exemplos de países que faziam comércio (seguindo as idéias liberais) se dando mal. O comércio não é forçado, é algo bom para ambas as partes, um compra um bem que deseja, o outro consegue vender um bem que possui, também por vontade própria. Fim da conversa. A lei da oferta e procura consegue fazer maravilhas, só precisa de uns ajustes de vez em quando.

O detalhe está justamente em perceber que as pessoas compram aquilo que desejam, e isso é um tanto complexo. Um cidadão não deseja apenas um produto isoladamente, ele também almeja uma específica configuração social. Quando compra uma mercadoria está financiando uma estrutura específica.

Um americano que não gostaria que suas siderúrgicas tenham dificuldades para se manter no mercado não deve comprar produtos fabricados com aço brasileiro. Mas pagará mais caro por isso.É mister que um brasileiro que compra produtos importados tenha em mente que isso debilita a produção nacional, e precisa pensar em todas as conseqüencias disso.

Percebam, contudo, que as escolhas devem ser delegadas aos próprio homens comuns. Estados que tiram decisões das mãos dos habitantes são os autoritários.

Não sou um extremo liberal, acredito que o Estado deva exercer certa influência. Sempre visando o bem comum. Mas qual seria esse bem? Será que a população prefere consumir eletrônicos importados mais baratos a sustentar uma geralmente atrasada indústria tecnológica brasileira? Será que os argentinos pararão de tomar seus ótimos vinhos e comprarão somente a bebida brasileira, de inferiores preço e qualidade? Os queijos Suíços cederão seu espaço nas gôndolas para os mineiros? Se os americanos quiserem acabar com sua indústria de laranaja e só tomarem o suco brasileiro, quem sofrerá a conseqüência (boas e ruins) serão eles.

Alguns anos atrás Umberto Eco sugeriu aos italianos que sentiam repúdio por Silvio Berlusconi um modo diferente e eficaz de atingi-lo. Umberto propôs que parássemos de comprar os produtos das empresas do magnata e também os de outras empresas que anunciassem em seus canais de televisão. A campanha teve algum efeito.

A próxima vez que exercer seu poder de compra, lembre-se de que muito mais do que o fluxo da posse de um item está em jogo. Mas não esqueça de sempre reclamar para si o direito de fazer essas escohas, afinal é através delas que o regime democrático se manifesta.

3 Comments:

Blogger Chiarelli said...

Denis, ótimo texto. Coerente, simples, e com forte conteúdo. Utilizo-me de algumas idéias de um ilustre professor que tenho na GV: a economia não ocorre no campo nacionalista. Não estamos na Copa do Mundo de futebol, muito menos nas Olímpiadas. Economia é uma questão de competição, em gradações variadas, de empresas de determinada indústria. Esse papo de pátria de empresa não serve para nada, a não ser para nosso atraso completo em matéria de crescimento econômico.

O protecionismo ocorre por alguma razão. Por pressões, geralmente de sindicatos de uma indústria que se sabe atrasada. O governo, dependendo do impacto político que o problema pode gerar, acata o lobby, e eleva as barreiras.

Segundo esse meu professor, quem sabe as idéias ds Revolução Francesa ainda chegarão ao Brasil, e o capitalismo também. Somos xenófobos ao extremo quando o assunto é economia, e temos que perder esse vício, essa idéia torta de que temos que comprar produtos nacionais. Temos que promover nossa competitividade, baixar os preços e transferir o excedente que ficaria nas mãos das empresas para as mãos dos consumidores.

Este assunto pede mais artigos. Voltarei ao tema.

11/10/05 19:14  
Blogger Luciana said...

Sou a favor da globalização, da troca de informações e comunicação entre países, do crescimento tecnológico, etc...e com isso espero poder comprar ( e vender, quem sabe) produtos cada vez melhores e mais modernos...portanto, se meu país não dispõe do melhor, comprarei importado...mas se o do meu país for tão bom ou superior, darei privilégio a tal...
Só espero ( e torço, rezo, trabalho para...)uma melhora constante ...tanto dos produtos nacionais, quanto dos internacionais e quem sabe um dia uma concorrência mais linear?

13/10/05 20:33  
Anonymous Daniel Motta said...

Não entendi a foto...


O texto entendi e concordo em genero número e degrau.

Mas a foto me intrigou.... Falei dela no texto sobre o desarmamento.


Voltando ao texto, apesar das multinacionais ganharem fortunas com royaltes e bla, bla, bla, é muito melhor ter uma Nestle que banca milhares de pessoas do que o zé das couves com o peaozinho dele.

Sem contar que temos aqui inúmeros exemplos de empresas que não deram certo por problemas culturais, como Pizza Hut e KFC.

Já dizia Darwin, "o bem adaptado sobrevive"

14/10/05 16:21  

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